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11/03/2020
Por AGEFLOR
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Livro ”Maurício Klabin – Empreendedor e pioneiro da indústria” é lançado na Ibá

Foi lançado na sede da Ibá o livro “Maurício Klabin – Empreendedor e pioneiro da indústria”, que narra a trajetória de um dos fundadores da centenária Klabin, empresa reconhecida mundialmente pela produção de papéis e papelão ondulado para embalagem. Paulo Hartung, presidente da Ibá, e Horacio Lafer Piva, presidente do Conselho Deliberativo da associação, abriram as portas da entidade para que o Chanceler Celso Lafer e Roberto Klabin apresentassem a obra para CEOs, diretores e demais representantes do setor de árvores cultivadas.

“Li o livro e considero uma obra fundamental para aproximar o setor da sociedade. Precisamos comunicar todas as benesses de nossa indústria e uma narrativa como esta, que aborda uma empresa centenária do setor, que vem construindo uma história de muito sucesso, torna-se essencial para apresentar ao público final a indústria de árvores cultivadas, sua importância no dia a dia e toda sua evolução”, comenta Paulo Hartung. Horacio Lafer complementou afirmando que “o livro demonstra a visão empreendedora de Maurício Klabin, que estava à frente do seu tempo. Este pensamento moderno é o que norteia as atitudes da Klabin até hoje, de olho no futuro, em atender à revolução sustentável que está em curso, com produtos alinhados à bioeconomia ”.

 

Discurso do Chanceler Celso Lafer em lançamento da biografia de Mauricio Klabin na IBÁ

Este livro, que estamos apresentando, é uma biografia de Maurício Klabin (1861-1923). Foi escrito com muita pesquisa e qualidade pelo historiador Roney Cytrynowicz.

Mauricio veio como imigrante, desprovido de recursos, de uma pequena aldeia judaica da Lituânia para S. Paulo no início de 1890 em busca de horizontes. Foi no correr da sua vida um pioneiro bem sucedido da industrialização brasileira. Destacou-se na implantação da cadeia produtiva de celulose e papel, um setor da vida econômica brasileira que aprofundou-se no tempo e foi adquirindo competitividade crescente. É um setor que se agrupa na IBÁ. Por essa razão que acreditamos que cabia fazer o lançamento inicial de sua biografia aqui, neste contexto. Políbio dizia que o início é mais do que a metade e alcança o fim. Por isso, suas experiências e iniciativas constituem um ativo de memória que cabe registrar na IBÁ, pois tem características exemplares de uma capacidade de rumo e orientação.

Registro, porque estamos na IBÁ, a importância que atribuiu às madeiras nacionais e ao eucalipto no fabrico de papel, papelão e celulose no “business plan” de 1909 da Cia. Fabricadora de papel – que adiante mencionarei – numa época em que elas tinham sido apenas precariamente testadas nas incipientes operações fabris em nosso país.

O livro esclarece como Maurício Klabin foi um empresário de corte shumpeteriano, com as qualidades necessárias para o empreendedorismo, apto para enfrentar riscos e que soube reunir os múltiplos recursos necessários para levar adiante e efetivar uma visão de implantação de industrialização no Brasil, numa época em que ela apenas engatinhava e não era um valor generalizado na sociedade brasileira do seu tempo.

A ação de Mauricio Klabin não foi fruto da improvisação – que não cabia e não cabe no nosso setor. Soube combinar a racionalidade dos meios e dos objetivos e detectou com grande tino as oportunidades propiciadas pelas transformações da economia brasileira de seu tempo – que foi o da Primeira República – e o alcance da dinâmica das mudanças da cidade de S. Paulo, que a transformaram no século XX num grande centro urbano de irradiação nacional. Em poucas palavras, percebeu a existência de um mercado para o papel que estava ao seu alcance. Desbravou-o liderando a sua família – os Klabin-Lafer – que trouxe da Lituânia na década de 1890, para com ela colaborar na “ideia a realizar” da industrialização.

A ação empresarial de Mauricio Klabin seguiu a lógica dos “backward linkages”, dos elos das cadeias produtivas, sobre as quais escreveu Albert O. Hirschman em The Strategy of Economic Development, e que estão no cerne do melhor do processo de substituição de importação. O que esta biografia revela é a especificidade dos modos pelos quais Mauricio Klabin levou adiante a sua visão de empreendedorismo no âmbito do nosso país.

Depois de ter com muito trabalho e esforço se aprumado economicamente, iniciou as suas atividades com uma tipografia e com um negócio de importação de papéis. Foi bem sucedido porque a demanda de papel para livros, cadernos, papel almaço, tinha aumentado com a urbanização e o adensamento econômico da cidade. Este também exigia um “marketing” que antes não existia. Por isso, dedicou-se a produzir folhinhas de qualidade que eram um meio de propaganda que singularizava os estabelecimentos na rede da vida econômica da cidade (ver p. 97). (Era o Klabin for you daquela época).

O negócio da venda do papel e o conhecimento do seu mercado levou Mauricio a conceber que a próxima etapa da sua ação empresarial seria a de fabricação de papel. Preparou-se para esta etapa primeiro arrendando em 1902 uma fábrica de papel em Salto de Itu que enfrentava dificuldades. A gestão da Fábrica deu a Mauricio e a sua família o domínio da produção de papel, e a ela agregando novas tecnologias que patentearam já conscientes da relevância do conhecimento para um bem sucedido processo de industrialização de papel e celulose. Foi uma antecipação do que é hoje a relevância da pesquisa e inovação em Klabin S/A.

Num outro plano em 1903 e em ação conjunta com a Companhia Melhoramentos de São Paulo, a Companhia e Industria Itacolomy, participou de Comissão Revisora da Tarifa Aduaneira do Ministério da Fazenda com o objetivo de propor modificações na estrutura tarifária. A meta foi reduzir as tarifas de feltros e machons, peças cilíndricas para as máquinas de papel. Estas eram máquinas de fabricação contínua que exigiam reposições, como salientou, e que não existiam como realidade concreta na época da promulgação da lei tarifária. O pleito foi aceito e a atuação da interlocução política de Mauricio com o governo indicou não só que tinha o conhecimento, na prática, dos elos da cadeia produtiva de papel e celulose (p. 97), como também a importância de explicitar, pela lógica do argumento sua relevância perante as instâncias governamentais. Trata-se assim de uma antecipação do positivo papel de representação dos interesses de um setor, como hoje é levado adiante pela IBÁ.

Mauricio completou a etapa preparatória da implantação da Cia. Fabricadora de Papel com longas viagens à Europa e, em especial para a Alemanha onde buscou e adquiriu “know how” e tecnologia que contribuiu para embasar a “ideia a realizar”de uma inovadora e moderna fábrica de papel.

O livro relata as múltiplas providências preparatórias de implementação da fábrica e sua implementação em Santana. A Cia. Fabricadora de Papel assumiu a forma jurídica de uma sociedade anônima e o lançamento de suas ações em 1909 foi acompanhado de um “business plan” do empreendimento divulgado no Estado de S. Paulo em sua edição de 26 de março de 1909.

Este plano de negócio é notável pela abrangência pioneira com a qual foram tratadas todas as questões relevantes: a identificação das matérias primas para a fabricação de papel e celulose é o já mencionado tema das madeiras; as características das máquinas e dos equipamentos, o numero de pessoas que seriam empregadas e seus salários, as fontes de energia, a tecnologia, o porquê da localização da fábrica e sua logística. É admirável o pioneirismo de Mauricio na comunicação para o mundo econômico do que são exigências operacionais de sustentabilidade do setor de papel e celulose.

A Cia. Fabricadora de Papel foi não só bem sucedida como empreendimento. Foi o patamar à partir do qual cresceu e se desenvolveu o que é hoje a Klabin S/A.

É claro que esta apresentação é apenas uma suscinta referência às atividades empresariais de Mauricio Klabin. A biografia dá conta de outras facetas de sua vida, inclusive seus negócios imobiliários no aproveitamento dos terrenos que comprou na Vila Mariana. O Prof.

José de Souza Martins no seu prefácio, esclarece na sua análise como ele se singularizou, inclusive no plano ético entre o pequeno número de grandes empresários do momento inicial da industrialização brasileira.

Concluo com uma nota pessoal. Mauricio foi o patrono inaugural do enraizamento no Brasil de toda a sua família extensa. A ele e ao seu tirocínio se deve o notável ponto de partida que redundou na grande empresa que é hoje Klabin S/A. Foi ele que criou o patamar para que sucessivas gerações de sua família extensa tivessem as oportunidades de se desenvolver e atuar, no correr das décadas, em todos os setores de vida brasileira. Entre eles, os presentes nesta reunião da IBÁ.

A biografia, muito bem escrita e pesquisada por Roney Cytrynowicz foi uma iniciativa que Roberto e eu patrocinamos, e hoje compartilhamos, como um ato de reconhecimento e gratidão.

 
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