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11/08/2020
Por AGEFLOR
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Joni Farina narra ao Pioneiro como a Todeschini se reconstruiu das cinzas

A sessão “As crises que venci desta semana” do Jornal Pioneiro é com João Farina Neto, presidente do Conselho Consultivo do Grupo Todeschini. O incêndio da fábrica de acordeões em 1971 é que deu origem ao que o grupo é hoje, um gigante do setor moveleiro.

Essa foi a maior crise que a Todeschini já passou, segundo Joni Farina, como é conhecido o filho de José Eugênio Farina, que morreu em maio deste ano. O pai do entrevistado tinha recém acabado de comprar a fábrica quando ela incendiou.  E a companhia já passava por dificuldades, pois o instrumento vinha perdendo mercado.

Depois, as crises econômicas e de mercado, nos Anos 70 e 80, fizeram a companhia ser pioneira no nicho de cozinhas modulares. O presidente do conselho e da Divisão Madeiras da Todeschini destaca que toda crise serve para sair do comodismo e procurar outras formas de atuar.

O incêndio da fábrica de acordeões e a reinvenção do negócio é uma história que também inspirou esta série. Como foi a superação desta primeira crise?

Sem dúvida, essa foi a maior crise pela qual a Todeschini já passou. Foi no final da década de 60. E ela passava por uma crise financeira muito forte, porque ela nasceu como uma fábrica de acordeões e, com a revolução musical, com o surgimento dos Beatles e da guitarra elétrica, o acordeon foi perdendo espaço. Em poucos anos, ele praticamente sumiu do mercado. Foi substituído pela guitarra elétrica, pelo órgão eletrônico… E aí a família Todeschini, que era a proprietária, resolveu vender a empresa. Aí é que meu pai vendeu tudo que tinha para transformar seus bens em dinheiro e comprar as ações dos proprietários. E 51 dias depois, queimou por completo a fábrica. Naquela época, a empresa já contava com 500 funcionários, exportava para mais de 20 países e, de repente, viu tudo se transformar em cinzas. Aí é que a gente aprendeu uma grande lição: a força de quando as pessoas se unem para um objetivo claro e todos puxando para um mesmo sentido. Aí a coisa anda. Se reuniu todos os funcionários, se mostrou a real situação, quase todos entenderam, a maioria deu as mãos e começou a reconstruir a empresa, praticamente das cinzas, do nada.

Como foi a reinvenção para ingressar no setor moveleiro?

Na época, a empresa já estava procurando outras alternativas de outros produtos para dar continuidade na sua história. Em Bento Gonçalves já começava a se fabricar alguma coisa de móveis e começava a se formar o polo moveleiro. A Todeschini tinha máquinas para trabalhar com madeira, porque a caixa, a embalagem do acordeon é de madeira, assim como o próprio corpo do acordeon. Então a alternativa foi a empresa começar a fabricar os móveis. O incêndio foi o marco final do acordeon e o início da fabricação moveleira.

Foi a partir de uma necessidade que vocês revolucionaram o mercado moveleiro com as cozinhas modulares?

A gente precisava recomeçar. Na época, eu ainda não estava na empresa, mas como meu pai era o diretor-presidente, eu acompanhei toda esta história. Eles tinham que encontrar algum produto que o mercado procurasse. E aí, depois de uma pesquisa grande no mercado, se descobriu que um nicho que ainda não estava sendo desenvolvido no Brasil era o de cozinhas componíveis, modulares. Na época, se chamava de cozinhas americanas. Aí a Todeschini foi pioneira no lançamento delas no Brasil, porque até então não existia o princípio da componibilidade. A empresa se especializou e, em poucos anos, na década 70, ela se tornou a maior fabricante de cozinhas do Brasil.

Como foi assumir a empresa da família, quais as crises que o senhor enfrentou já no comando da Todeschini?

Aí vieram as crises da década de 80, todos aqueles planos econômicos, com inflação altíssima, chegamos a passar por momentos com inflação em torno de 80% ao mês. Hoje é difícil até imaginar como é trabalhar, vender um produto com uma inflação dessas ao mês. Passamos por três, quatro pacotes e planos econômicos. E cada um  era congelamento de preços e mudança total da economia. Estava se trabalhando com índices de inflação de 40% e 60% e aí vinha o congelamento de preços e você passava a trabalhar por dois, três meses com uma inflação zerada sob decreto. Aí o povo corria para as compras e faltava tudo que era matéria-prima, até carne e leite no supermercado. Eu acho que foi um aprendizado para todos que passaram por essa época, da flexibilidade, da prontidão para mudar de uma hora para outra de sistema. Imagine como era vender um produto para receber o pagamento em 30 dias sem saber como estaria a inflação. Ela poderia crescer 10%, 20%… 

Como está sendo a crise atual para o setor moveleiro?

Essa é uma crise bastante diferente, porque existe um fator que as outras não tinham: o fator medo, mas também o fator saúde. É uma crise de imprevisibilidade, insegurança, muita gente perdendo emprego. Tem muitas empresas fechando, setores sendo muito afetados. E não é por uma questão de falta de dinheiro, é por uma questão de decreto, de não poder estar atuando no seu ramo de negócio. É uma crise que ninguém podia esperar nessas dimensões. E ninguém estava preparado. Mas toda crise serve para a gente sair do comodismo. A gente cria novas alternativas, procura formas de passar pela crise. Nós, da Todeschini, assim que se decretou o lockdown, na segunda quinzena de março, fechamos todas as nossas lojas. Todo mundo levou um susto. O que vamos fazer agora com o mercado fechado? Não sabíamos por quanto tempo… E a primeira coisa que fizemos foi rever todas as nossas despesas. Nós saímos recontratando todo os contratos com nossos fornecedores e, principalmente, cortando tudo que é despesa possível. Nós procuramos preservar nossas equipes. Se deu férias coletivas, se fez uso dos benefícios criados pelo governo, muita gente passou a trabalhar em casa. E superamos bem. Hoje, a maioria das lojas já está aberta. Para o setor moveleiro em especial, praticamente já esta voltando àquela situação de antes da pandemia.

Fonte: Jornal Pioneiro

 
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